Em um ciclo marcado por preços mais pressionados para soja e milho, parte dos produtores do oeste do Paraná optou por manter e até reforçar o nível tecnológico das lavouras. A lógica financeira por trás disso faz muito sentido. Diante de margens mais estreitas e crédito seletivo, a produtividade passa a ser o principal instrumento de defesa da rentabilidade.
“Na minha perspectiva, o investimento se paga”, diz Rodolfo Camargo Filho, 42 anos, produtor rural em Ibema (PR), que cultiva 2.200 hectares. “Minha microrregião chove bem e tem um clima estável. Com alta produtividade, conseguimos um retorno líquido positivo mesmo com preços oscilando.”
A avaliação do produtor foi feita durante a feira agrícola Show Rural Coopavel, realizada nesta semana em Cascavel, na porção oeste do Paraná e que segue até sexta-feira, 13. A Forbes Agro está acompanhando esta que é uma das principais feiras do país e que abre o calendário de eventos do agronegócio.
Camargo Filho, por exemplo, faz questão de todos os anos participar da feira para manter a propriedade Gralha Azul, a qual gere junto de sua irmã, Ana Cristina, sempre atualizada com o que há de mais moderno e eficiente no campo. Não é por acaso que os produtores contam com um pátio robusto e novo, com idade média de dois a três anos, com três máquinas colhedoras de grãos, dois pulverizadores e cinco plantadeiras.
O produtor projeta produtividade acima de 90 sacas por hectare na soja na safra 2025/26, patamar próximo às 93 sacas registradas no ciclo anterior. No milho de segunda safra, a estimativa é de 120 sacas por hectare, abaixo das 140 sacas colhidas no ano passado, reflexo do atraso no plantio provocado pelo frio que alongou o ciclo da soja.
“O maior investimento continua sendo o solo: adubação pesada e correção com calcário. Depois disso, focamos em sementes de alta tecnologia. Buscamos o tripé precocidade, produtividade e sanidade”, diz Camargo Filho.
A disciplina também aparece na comercialização. Até 90% da safra foi travada antecipadamente, em operações escalonadas que buscaram formar preço médio ao longo do ciclo. O restante foi comercializado no mercado físico no início da colheita, em função de ajustes logísticos. Para a próxima safra, parte da produção já conta com contratos fixados.
Safra cheia de um lado

O cenário de procura por investimentos tecnológicos durante o Show Rural Coopavel reforça o padrão para busca de altas produtividades. Em Cascavel, o produtor Helmuth Bleil, de 61 anos, responsável por cerca de 1.100 hectares, também relata recuperação da soja após o frio inicial e expectativa de média superior a 80 sacas por hectare, frente às 75 sacas do ciclo passado.
A estabilidade climática regional, segundo ele, sustenta o nível de investimento, mesmo com preços inferiores aos do ciclo anterior.
“O clima nos permite manter o investimento, ao contrário de regiões como o Rio Grande do Sul ou Mato Grosso do Sul, onde a variação climática é maior e o produtor acaba diminuindo o investimento por medo de não conseguir pagar o custeio”, diz Bleil.
No milho de inverno, o salto produtivo redesenhou a hierarquia das culturas. Em 2025, Bleil colheu 180 sacas por hectare na safrinha, recorde que aproximou o faturamento do cereal ao da soja. Neste ano, 100% da área será destinada ao milho na segunda safra, dentro da janela considerada segura até meados de fevereiro.
Margens apertadas do outro

A safra paranaense tende a ser volumosa, com clima relativamente favorável e estabilidade regional maior que em outras áreas do País. Com uma produção de 45,1 milhões de toneladas, o Estado é o segundo maior produtor de grãos, logo atrás de Mato Grosso, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Especificamente a soja é estimada uma produção de 20,4 milhões de toneladas na safra 2025/2026, 2,3% a mais que a safra 2024/2025. Já o milho são esperadas 20,3 milhões de toneladas, o que praticamente foi o resultado da colheita anterior.
No entanto, o aumento da oferta global pressiona preços, reduzindo espaço para erros de gestão. Executivos de empresas de sementes e defensivos relatam que o produtor paranaense tem mantido o padrão tecnológico, mesmo diante do custo de capital mais elevado.
Para Carlos Hentschke, presidente da Syngenta Seeds no Brasil, o momento exige precisão.
“As margens continuam apertadas e a gestão de risco se torna central. O produtor eficiente investe onde há retorno comprovado,” diz Hentschke.
E para garantir que não falte tecnologias para investir, a companhia investe globalmente cerca de US$ 2 bilhões por ano em P&D, e uma parcela significativa desse valor é drenada para o Brasil para acelerar inovações em soja e milho.
A companhia faturou globalmente US$ 17 bilhões (R$ 88,2 bilhões na cotação atual) em 2024, sendo US$ 6,1 (R$ 31,7 bilhões) na América Latina.
A disputa por participação ocorre em paralelo ao aumento da exigência por resultado econômico no campo no mercado de proteção de cultivos, que encerrou 2024 em R$ 101,5 bilhões, 24,39% a mais em comparação a 2023, segundo a CropLife Brasil, entidade que reúne indústrias de defensivos químicos, biológicos e sementes.
Lucas Botelho, diretor comercial da Ihara, observa que o nível tecnológico não recuou. “Percebemos que o nível tecnológico do agricultor não diminui; pelo contrário, tem aumentado. Apesar dos desafios de margem dos últimos anos, o produtor brasileiro é muito adepto à tecnologia, seja em sementes, agroquímicos ou biológicos“, diz.
A companhia faturou R$ 4,26 bilhões no país em 2024 se posicionado em 63° lugar no ranking Agro100 2025.

A integração entre químicos e biológicos também ganha espaço. Nairo Piña, presidente da Sumitomo Chemical para a América Latina, resume a estratégia da empresa na aliança entre essas duas tecnologias de proteção das lavouras.
“A combinação entre químico e biológico é o que permite sustentar produtividade com eficiência,C destaca Piña.
A companhia investe aproximadamente 7,5% do faturamento global em P&D e modernizou sua planta no Ceará com aporte de US$ 50 milhões (R$ 250,0 milhões), alcançando capacidade de 150 milhões de litros por ano de defensivos agrícolas.
A Sumitomo Chemical teve uma receita de R$ 3,92 bilhões no Brasil em 2024 e ficou na 67a colocação da Lista Agro100 em 2025.

Para Marcelo Batistela, vice-presidente da divisão agrícola da BASF no Brasil, a conta é objetiva. “Em um ambiente de preços pressionados, produtividade é o principal multiplicador do resultado do agricultor.”
A BASF reportou uma receita global de € 65,3 bilhões (R$ 402,8 bilhões), sendo € 9,8 bilhões (R$ 60,5 bilhões) para os negócios globais em soluções para a agricultura.
A leitura é semelhante na Corteva Agriscience, segundo Felipe Daltro, diretor de Marketing e Efetividade Comercial da Corteva Agriscience para Brasil e Paraguai. “A única variável realmente sob controle do produtor é a produtividade.”
A companhia reportou um faturamento global de US$ 16,9 bilhões (R$ 87,7 bilhões) em 2024, sendo US$ 3,8 bilhões (R$ 19,7 bilhões) na América Latina.
Já na ADAMA, a ênfase recai sobre gestão financeira. O diretor financeiro Luiz Ruzza destaca que o ciclo do agro é longo e exige disciplina de capital de giro. “Crescer com controle de risco é fundamental”, diz Ruzza.
A Adama faturou R$ 3,66 bilhões e também figura entre as empresas de destaque na Lista Agro100 da Forbes, na 73a posição.

