Se parece que pouca coisa mudou ao voar na classe econômica nos últimos 20 anos, é porque, de fato, quase nada mudou. Às vezes o espaço para as pernas ganha alguns centímetros (mediante pagamento), outras vezes acontece o contrário. O café continua ruim, os bebês continuam chorando e a turbulência continua sendo turbulência.
Há um motivo para os assentos mais baratos ainda parecerem baratos, mesmo em aviões novíssimos e até em muitas rotas de longa distância. É que as companhias aéreas não ganham muito dinheiro com passageiros da classe econômica, apesar das cobranças extras recentes por bagagem e lanches a bordo. O verdadeiro lucro está na parte dianteira do avião — e é por isso que as companhias disputam ferozmente quem oferece mais vantagens para atrair passageiros das classes premium.
Pesquisas da empresa de dados de viagem Trondent Development Corp sugerem que passageiros corporativos representam três quartos dos lucros de uma companhia aérea, apesar de corresponderem a apenas 12% do total de passageiros. E cada US$ 1 (R$ 5,3) investido em melhorias para viagens a trabalho gera US$ 15 (R$ 80) em lucro.
“Os viajantes globais agora esperam isso”, disse David Pacey, vice-presidente executivo e chefe de serviço de bordo e lounges da Korean Air, em entrevista concedida em abril de 2025, em Seul. “Eles esperam um padrão mais elevado em tudo. Isso está até atrasando a entrega de aviões, porque estamos reformando a parte dianteira da aeronave, o que leva muito tempo e exige um equilíbrio preciso de peso. É simplesmente um segmento muito mais lucrativo. Precisamos elevar constantemente o nosso nível.”

Em 2024, a companhia reformulou todo o seu serviço de alto padrão, da classe executiva à primeira classe, além dos lounges exclusivos. Isso foi muito além de um simples ajuste nos aperitivos. O chef coreano Saekyeong Kim, do renomado restaurante Cesta, em Seul, juntou-se à empresa há dois anos como consultor para desenvolver um cardápio totalmente novo. Pacey o abordou em seu restaurante, já admirador de seus steaks maturados a seco e acompanhamentos criativos. “Perguntei se ele conhecia alguém que pudesse nos ajudar a criar um novo menu para a Korean Air”, contou Pacey. “E ele respondeu: ‘Por que eu mesmo não faço isso?’ Perfeito.”
Em março de 2025, o menu da primeira classe foi ampliado para incluir amuse-bouche e novas entradas. Há bibimbap de carne marmorizada, costelas bovinas cozidas lentamente, kimchi de mostarda, arroz com polvo e abalone, servidos em louças da Armani Casa ou porcelanas Bernardaud. Os talheres foram atualizados, assim como as taças de vinho.
A frota de 12 aviões Boeing 787-10 da companhia foi redesenhada para incluir mais assentos Prestige Suites 2.0, com camas de 2 metros de comprimento e divisórias de 1,30 metro de altura. O kit de amenidades, o colchão e os pijamas também foram aprimorados. Pacey atribui esse novo foco na classe executiva à pandemia.
“Acho que as pessoas ficaram confinadas por tanto tempo que passaram a pensar algo como ‘YOLO’”, disse Pacey — o que, para os clientes da companhia, se traduziu em uma expansão das ofertas premium e em “pessoas querendo viver uma nova experiência”.
A Disputa Pelos Viajantes Premium Se Intensifica
As companhias aéreas agora trabalham intensamente para superar umas às outras na classe executiva, um segmento que surgiu na Europa nos anos 1970, quando a demanda por passagens de primeira classe começou a cair. Os assentos da classe econômica costumam mal empatar os custos e acabam sendo subsidiados pelas categorias superiores. O custo para oferecer uma experiência premium é pequeno em comparação com o que é cobrado por ela — por isso, as cabines premium tendem a gerar a maior parte da receita e do lucro das companhias aéreas.
A Air France, há muito líder nesse segmento, lançou em 2025 uma nova classe executiva em seus Boeing 777-300, com menus assinados pelo chef Julien Royer, três estrelas Michelin em Singapura, e vinhos selecionados por Xavier Thuizat, ex-chefe sommelier do Hotel de Crillon. A startup de luxo taiwanesa Starlux também apresentou novos assentos de primeira classe e classe executiva em seus Airbus A350-900, com poltronas em formato espinha-de-peixe com cúpula, kits de skincare de alto padrão e Wi-Fi de alta velocidade gratuito.
A American Airlines lançou uma nova oferta de classe executiva em seus Airbus A321XLR — aeronaves de fuselagem longa e estreita que exigem menos passageiros para cobrir custos em rotas do nordeste dos EUA para o Atlântico ou do sul para a América do Sul. Mas esses poucos passageiros precisam estar na classe executiva ou, no mínimo, na econômica premium para que a estratégia faça sentido, escreveu o especialista em aviação Gary Leff em uma coluna de dezembro do View from The Wing. “Eles estão aproveitando a oportunidade para usar esse avião em rotas transcontinentais com demanda por assentos totalmente reclináveis, como Nova York–Los Angeles”, escreveu.
A Singapore Airlines utiliza seu International Culinary Panel, um grupo de chefs de todo o mundo que colaboram com a equipe interna da companhia, para manter seus menus de classe executiva e primeira classe no mais alto nível. A Turkish Airlines trouxe um chef estrelado pelo Michelin para a campanha “Restaurant in the Sky”, trabalhando com chefs da própria companhia em Istambul para combinar culinária tailandesa e chinesa com a gastronomia turca.
Em junho de 2025, a japonesa All Nippon Airways (ANA) apresentou uma nova classe executiva chamada THE Room FX, descrita pela companhia como“o maior assento do mundo em classe executiva internacional em uma aeronave de médio porte”. O produto conta com poltronas largas em formato de sofá, portas de privacidade e nova tecnologia a bordo dos Boeing 787-9. “Esta é a primeira atualização dos nossos assentos de classe executiva para aeronaves de médio porte em uma década”, afirmou a companhia em comunicado. O segmento é “crucial para a diferenciação de produto e serviço” e, com concorrentes cinco estrelas como Japan Airlines, Cathay Pacific e Singapore Airlines já bem estabelecidos, era hora de alcançar o mesmo patamar.
Uma Nova Categoria para Viajantes Frequentes
Wade Black quer criar uma classe de voo totalmente nova, situada entre a primeira classe e os jatos particulares. Ele é cofundador da Magnifica Air, que está adquirindo uma frota de jatos corporativos da Airbus e transformando-os em aviões de “classe privada”, com apenas 54 assentos. O plano é lançar rotas para grandes cidades dos EUA em 2027, com preços de passagens cerca do dobro da primeira classe.
O foco em viagens de alto padrão é generalizado em toda a indústria, disse Black em entrevista. “A demanda por acomodações premium é alta. As companhias estão adicionando mais assentos de primeira classe, e todo o modelo de companhia aérea de baixo custo está ficando para trás. As pessoas querem mais: querem serviço, conforto, espaço. E elas podem pagar por isso.”
De fato, apesar do aumento nos custos das passagens, os viajantes afirmam que pretendem voar mais — e não menos — em 2026. Uma pesquisa do Internova Travel Group revelou que 27% dos viajantes esperam voar mais neste ano.
Black afirma que essa demanda é impulsionada por “viajantes aspiracionais”, dispostos a economizar para ter uma experiência de viagem melhor. “Eles estão deixando de comprar casas ou fazer outros grandes investimentos para gastar com experiências. Sentimos que o mercado de luxo não estava sendo realmente atendido. Quando eu era mais jovem, viajar de avião era um evento.”
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com
